entrou em casa às três de manhã e encontrou sua mãe
em pânico.
— Minha filha, o que aconteceu?
— Não sei.
Não era mentira. E estava perturbada demais para inventar
uma desculpa qualquer.
— Como não sabe? Você sai de casa dizendo que vai a uma
festa na casa da Mariana, desaparece sem dar notícias, deixa todo
mundo preocupado e ainda diz que não sabe?
A mãe estava realmente furiosa.
— Eu fui à festa na casa da Mariana — defendeu-se a menina.
— Como foi se ninguém viu você lá?
— Eu estava lá — insistiu a menina.
— Até agora? — berrou a mãe, que, evidentemente, não
acreditava na versão da filha.
— Até agora.
— E pode explicar como nem a Mariana, nem suas amigas,
nem ninguém viu você na festa?
A mãe era puro desatino. A menina nunca tinha feito uma
coisa dessas antes. Mas parecia que o bom comportamento
pregresso não lhe trazia nenhuma vantagem.
O fato é que a menina não sabia dizer o que tinha acontecido. Não
que lhe falhasse a memória. Lembrava bem cada detalhe da noite.
O problema era encontrar as palavras. Sentia-se esquisita,
flutuante, como se tivesse sido jogada num mundo totalmente
desconhecido. Estava com medo. Muito medo. Mas não saberia
explicar exatamente do quê. Apenas sabia que uma coisa terrível
tinha acontecido. Alguma coisa cujos desdobramentos ainda não
conseguia prever.
Tentou reordenar os fatos da noite em sua mente. Talvez
assim conseguisse uma explicação para tudo aquilo.
Tinha chegado cedo à casa de Mariana. A festa ainda não tinha
começado, e a amiga estava no quarto se arrumando. Dirigiu-se ao
jardim, que estava especialmente bonito para a ocasião. Não que
fosse uma festa especial: não era. Mas Mariana transformava
qualquer reunião de amigos num grande baile. Não lhe faltava
dinheiro para isso. Nem bom gosto. Nem criatividade.
A festa do dia era à fantasia e tinha como tema a Morte.
Cada qual deveria imaginar uma maneira interessante de passar
dessa para melhor e inventar uma fantasia que combinasse com
sua idéia.
Marcelo já tinha avisado que iria de pijama: queria morrer
dormindo. Mirela providenciara trajes de aviadora: achava lindos
os acidentes trágicos. Beatriz aplicara dúzias de camélias em seu
vestido, em homenagem à Dama das Camélias, a pianista que
tinha sido levada embora pela tuberculose.
Andreia pensara em alguma coisa bem romântica. Queria
morrer de amor. Dissolver-se em paixão. Por isso, decidiu alugar
um traje de época, um luxuoso vestido que imitava os usados no
século XVI, decotadíssimo, armadíssimo, muito sensual.
Prendeu os cabelos cacheados num coque no alto da cabeça, deixando à vista a nuca. Pegou o pó-de-arroz da mãe e passou
uma generosa camada no rosto, no colo e no pescoço. Ficou
branquíssima. E linda.
Agora, sim, parecia uma musa de poeta romântico, dessas
que morrem virgens, jovens e belas, e carregam para o túmulo o
coração do amado. Pelo menos, era assim que se sentia quando
chegou à casa de Mariana.